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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu sei, mas não devia - Amanda Rauber


"Eu sei, mas não devia. Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia".


A gente se acostuma a não se comunicar com a família. A dar apenas bom dia, boa tarde e boa noite. A não almoçar na mesa junto com os familiares, pois a correria é grande. A cada um ter o seu quarto, com portas e chaves, se trancar lá e não ver alguém que está tão próximo. A não questionar, achando que ninguém pode resolver o seu problema. E não questionando, se torna cada vez mais distante.


A gente se acostuma a acordar de manhã de cara amarrada. A tomar o café da manhã com desgosto, pois não dormiu bem à noite e acordou em cima da hora. A reclamar de tudo que ainda não aconteceu, mas que talvez possa acontecer. A não olhar no rosto dos colegas de sala, por parecer que todos estão com a mesma aparência horrível e desmotivada que a sua.  A ter preguiça de pensar, que talvez um pouco de esforço hoje, possa ser útil amanhã.


A gente se acostuma a achar que não precisa de ninguém. E assim, acaba achando que ninguém precisa de nós. E achando isso, vai devagar se distanciando cada vez mais e mais dos amigos, das pessoas, do mundo. E se distanciando, fica triste por achar que ninguém que ninguém se importa. E por ninguém se importar, não consegue compartilhar tudo que está guardado, bem lá no fundo, ansiando tanto pra sair. E não conseguindo compartilhar, não consegue ser feliz.


A gente se acostuma a respirar a poluição. A não conhecer o ar puro, pois em todo lugar que passa tudo é cinza. Ao canto dos pássaros de manhã, acompanhado da buzina de carros, do barulho dos motores de motos, da poluição sonora.  A desmatar, destruir milhares de árvores, tirar o habitat de vários animais apenas para dar lugar a prédios altos e gloriosos.


A gente se acostuma à desigualdade social. A ouvir no noticiário que milhões de pessoas passam fome, mas não se importar realmente, pois você não está passando. A se conformar com políticos mergulhando no dinheiro, enquanto algumas pessoas moram na rua. A trabalhar muito e ganhar pouco, mas achar que isso “tá bom”. A desmerecer pessoas que parecem ter pouco dinheiro, pois quem tem pouco dinheiro é pobre. E pobre é ignorante, pois não se esforçou o suficiente para estudar e conseguir alguma profissão de valor.


A gente se acostuma ao preconceito. A julgar alguém sem ao menos conhecer. A abrir o jornal e ver que um homossexual foi morto a pancadas, apenas por ser o que é. A cair nos estereótipos da sociedade. A querer ser igual à mocinha da novela que é magra, bonita, com o cabelo perfeito e que usa roupas de grife. A achar que tudo que é diferente é anormal.


A gente se acostuma a ser alienado. A ouvir e acreditar, sem procurar saber se realmente é verdade, pois não é do nosso interesse. A sentar hipnotizado na frente da TV, ver programas que são quase uma lavagem cerebral e se sentir bem com isso.  A perder tempo com coisas que não são importantes.


A gente se acostuma a se isolar. A não se importar. A não expressar. A não aproveitar. A não experimentar. A não questionar. A não tolerar. E, principalmente, a viver com essa angústia de não estar vivendo.


A gente se acostuma, mas não devia.



Amanda Rauber                                                                                                             
Turma: 303
Professora: Ana Maria



Releitura da crônica "Eu sei, mas não devia" - Marina Colasanti

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