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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu sei, mas não devia - Sandro Augusto


"Eu sei, mas não devia. Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia".


A gente se acostuma a viver com a família porque é dependente disso, ao menos no começo da vida. E porque é  dependente, logo se acostuma a viver assim. E porque vive assim, logo se acostuma a não querer viver sozinho. E  porque não quer viver sozinho, logo se acostuma a ter medo da solidão. E porque tem medo da solidão, logo se  acostuma a procurar companhia. E porque procura companhia, logo se acostuma a não andar só. E porque não anda só, logo se acostuma a sorrir. E com o tempo esse sorriso se torna felicidade que vem do ompanheirismo, da amizade de todos.


A gente se acostuma a ir para escola porque precisa estudar. A usar uniforme porque tem que ser identificado como aluno.   A ler por que tem que ter conhecimento. A escrever porque quando esquecer tem como lembrar. A escutar o sinal por que   quer que a aula acabe logo. A apresentar trabalho por que precisa de nota. A fazer recuperação porque tem que passar de ano.   A fazer exercícios por que vai aprender. A discutir com a professora por que está estressado com a matéria. A chegar em casa   cansado e ter que estudar porque tem que chegar no outro dia e fazer prova.


A gente se acostuma a ir trabalhar e ganhar um salário mínimo. E, aceitando esse salário, aceita a escravidão e a ter só  o que precisa. E, aceitando só o que precisa, aceita a não ter o que quer. E, aceitando a não ter o que quer, aceita a ser  uma pessoa estressada. E, aceitando a ser uma pessoa estressada, aceita a ter um mal desempenho no trabalho. E,  aceitando esse mal desempenho, aceita as críticas. E, aceitando as críticas, aceita ser despedido, e a repetir isso no  próximo emprego.


A gente se acostuma amar sem ser amado. A ser ignorado quando dá muita atenção. A deixar de lado os problemas  quando precisa resolvê-los. A beijar esperando ser beijado novamente. A ser esquecido quando precisa ser visto. A ser  traído quando SE é fiel. A ser abandonado quando mais precisa daquele alguém. A chorar aos prantos para tentar enxergar alguém que perceba a sua tristeza, mesmo assim nem vai se importar. 

A gente se acostuma a ver conflitos mundiais e refletir. A ter medo e conquistar coragem. A navegar na internet e se  surpreender. A ler noticias e chorar com as desgraças. A sair de casa e ser assaltado. A comprar algo e pagar impostos.  A assistir televisão e ver ataques terroristas. A votar e se arrepender. A ser induzido, obrigado, manipulado, a ver tudo o que acontece ao seu redor e ter participação, boa ou ruim.

 A gente se acostuma para se encaixar na sociedade, para ser feliz. Se acostuma para não se machucar, para fugir  de ofensas e da violência. A gente se acostuma para salvar a própria vida que, com o tempo,  vai se acabando de tanto aceitar e se acostumar, a vida se perde se tornando algo sem explicação.



Sandro Augusto
Turma: 302
Professora: Ana Maria

Releitura da crônica "Eu sei, mas não devia" - Marina Colasanti

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